sexta-feira, 11 de julho de 2014

Com pinos nas costas, Elza Soares relembra Garrincha e teme 7x1 nas urnas


No início deste ano, Elza Soares estava deitada em uma maca a caminho da mesa de cirurgia, após anos sofrendo de dores na coluna e com dificuldades de locomoção. Foi a segunda tentativa cirúrgica de aplacar a fratura causada pela queda de cima de um palco, em 1999, agravada pelo uso do salto 15 e o gingado característico da paciente. Ao cogitar possíveis consequências da operação --perder os movimentos ou a fala, por exemplo-- prometeu a si mesma: "Se eu sair desse hospital, vou atrás do Lupicínio Rodrigues".

O compositor gaúcho, cujo centenário se comemora neste 2014, foi autor do primeiro sucesso da cantora, "Se Acaso Você Chegasse", em 1960. Ele aparece emoldurado ao lado de Elza no palco do novo show dela, "Elza Canta Lupicínio", e norteia o repertório com as canções que popularizaram o termo "dor de cotovelo". Elza entra e sai do espetáculo com passos e movimentos curtos, sempre amparada por um ajudante. No centro do palco, senta-se em uma poltrona e dança nos limites do assento. Não há chororô.

Com oito pinos nas costas, ela mantém a mesma média de 15 shows por mês, que se desdobram em outros dois espetáculos: "A Voz e a Máquina", em que duela com batidas eletrônicas de dois DJs; e a releitura de seu álbum clássico, "A Bossa Negra" (1961). "Me cansa ficar parada", ela diz, contando nos dedos mais um mês de recuperação, enquanto conversa com o UOL em um hotel em São Paulo, horas antes de sua apresentação no Sesc Santana, na zona norte de São Paulo.


No palco, fala do fatídico 7 a 1 que a seleção brasileira levou na semifinal da Copa do Mundo contra a Alemanha: "Parecia que os jogadores estavam com assaduras". Madrinha da Seleção de 1962 e ex-mulher de Mané Garrincha, ela também reclama sobre a torcida brasileira. "Teve muita gente [na Copa], mas o povo que gosta de futebol, o povo de verdade, não participou. Futebol virou elite". E prevê uma goleada, sabe-se lá de quem, nas próximas eleições presidenciais. "O povo mais inocente que tem é o brasileiro."

No quarto de hotel, Elza não usa os enfeites brilhantes e a transparência dos vestidos de gala que traja no palco, mas não dispensa a maquiagem mais leve e os óculos escuros. A pele negra da carioca não mostra as rugas de seus 77 anos, e a cabeleira -- ou peruquinha, como ela chama--  fica entre o cacheado e o black power. A cantora, que em uma de suas primeiras aparições disse que tinha vindo do "planeta fome", também veio do "planeta racismo": "Escrever 'somos todos macacos' é fácil. Mas e dizer: 'Somos todos negros'? Ninguém consegue falar isso".
O povo que gosta de futebol, o povo de verdade, não participou da Copa. Foi tudo mundo caro. Ninguém consegue comprar um ingresso de R$ 100. Vai ter dinheiro como? Futebol virou elite. Era do povo e virou elite. Agora vem a disputa das eleições. Eu tenho medo que venha outra surpresa como na Copa do Mundo. Vamos levar uma goleada de 7x1 outra vez
Elza Soares, sobre o resultado da Seleção na Copa

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