sábado, 3 de maio de 2014

Galisteu revela três sonhos de Senna e briga no dia da morte

A convivência de aproximadamente 18 meses foi o suficiente para fazer de Adriane Galisteu um dos nomes mais lembrados quando o assunto é o tricampeão mundial Ayrton Senna. Aos 20 anos, começou a namorar o piloto, abandonou a profissão de modelo e foi rodar o mundo com o homem que se tornou um dos mais carismáticos da história do país.

Sua vida mudou não só naqueles 18 meses, mas para sempre. "Eu era a menina que morava na Lapa e que de repente estava jantando com celebridades em Mônaco", falou ao se assustar com ascensão repentina. Meses depois da morte do ex-namorado, lançou uma biografia sobre a história de ambos.

Virou apresentadora, atriz, modelo e posou nua. Passo a ser celebridade no Brasil. Sobre os que criticam o fato de ter alavancado sua imagem em cima da morte de Ayrton, apenas a compreensão. "Eu não me incomodo. Fui reconhecida a partir do acidente, mas o resto que fiz não foi sombra dele. Fui atrás do meu próprio trabalho", afirmou.

Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte, Adriane fala sobre algumas intimidades de Ayrton, como os três sonhos que ele tinha na vida e que não conseguiu realizar. Fala como ajudou o ex-piloto a se tornar uma pessoa mais relaxada - pessoas próximas sempre relataram um Senna mais "light" durante o namoro com ela.

Adriane também fala sobre a relação fria que teve com a família do tricampeão, que nunca escondeu a antipatia pela modelo - no enterro é possível ver uma afinidade maior com Xuxa, ex-namorada do piloto.
UOL Esporte: Como era a sua relação com Ayrton, o que você mais lembra dele?

Adriane Galisteu: Pra mim é inesquecível. Eu vivi como mulher e ser humano. Essa história me pertence. Fico emocionada a cada história que vejo. Mexe muito comigo. Me sinto privilegiada por ter convivido um ano e meio com ele e ver o quão ele era especial. Ele faz falta como ser humano. Ele faria diferença em qualquer outro esporte. Ele era diferenciado. Era um ser extremamente simples. É uma perda irreparável para nós brasileiros, não só para o esporte. Ele era um cara que dizia "eu não preciso mostrar pras pessoas que sou bonzinho". Isso era uma das coisas boas dele. Era uma pessoa que sempre queria ajudar as outras, era muito especial.

Você foi uma pessoa que dizem tê-lo deixado mais "light". Como fez isso?
Ele era um homem jovem e alegre dentro de casa. Mas vivia situações tensas. Ele ficava nervoso, tinha uma relação não muito boa com a imprensa, exceto com algumas pessoas que tinham entrada com ele. Às vezes ele estava tão focado que não percebia uma pessoa da escuderia querendo falar com ele, por exemplo. E eu falava ´Ayrton, tem uma pessoa com uma camisa na mão ali querendo um autógrafo faz 40 minutos´. Isso não era problema pra ele, mas ele não prestava atenção. Eu fiz com que ele encarasse tudo isso de uma maneira mais leve. A vida dele tinha muita responsabilidade. Era uma reunião em cima da outra. Sufocava mesmo, tinha pouco tempo pra ele e muito pro trabalho. Ele ficava tão focado que não reparava nas coisas ao redor. Acho que sou responsável sim por um momento mais leve. Eu pegava no pé dele pra ele ficar de férias de verdade, sem fazer reunião nas férias

Tem alguma situação marcante que a maneira focada dele atrapalhou na vida pessoal?
Ele tinha três sonhos que morreu sem realizar: conhecer a Disney (em Orlando), correr na Ferrari e ter um filho. Quando a tragédia toda aconteceu, tudo isso me veio à cabeça. Eu lembro muito dessa coisa, desses sonhos que não foram realizados e eram tão simples para um campeão mundial. A Ferrari era o carro que mais corria na época. Eu perturbava ele pra conhecer a Disney. E eu fui pra lá e volto direto até hoje. Vou quase duas vezes por ano. Aprendi para minha vida o seguinte: não vamos deixar nossos sonhos pra serem realizados para amanhã. Os sonhos que dependem só da gente, claro. Por que não fazê-los agora? Não sabemos o dia de amanhã. Nós nunca falamos sobre ter filho. Ele falava "quero ser pai", mas não que ele dizia "eu quero ter um filho com você". Era um sonho dele de ser pai. E eu falava "nas próximas férias nós vamos para a Disney". Dizia que o ajudaria a realizar os três sonhos.

O Ayrton estava muito apreensivo naquele fim de semana?
Falei com ele minutos antes da prova, o que achei estranho. Falamos de manhã e dez minutos antes de começar a corrida. E dez minutos antes das provas ele não falava com ninguém. Aquela corrida não era para ter acontecido. O acidente do Rubinho e a morte do Ratzenberger tinham o atormentado. Eu me lembro de ter falado "Ayrton, você é o único cara que pode não correr. Não corra." Ele ficou muito bravo comigo. Brigou comigo e passou a falar que eu estava ofendendo ele, que não tinha cabimento aquilo. Eu falava "você esta completamente descontrolado." Ele não estava legal. Tomei uma bronca tão grande. Ele falava "como não vou correr? Se eu não correr, não ganho essa corrida e não ganho campeonato". Ele fez contas que se não ganhasse, ficaria difícil o campeonato. Ele reclamava do carro ,que estava duro e difícil e não havia pontuado ainda.  Aí ele falou "vou correr sim". E eu disse "então está bom". Fiquei mal humorada. Não queria que ele corresse.

Como foi sua reação ao saber do acidente e a da notícia da morte?
Quando ele bateu, eu desliguei a TV e fui tomar banho. Não dei a menor importância para a batida. Tive uma sensação de alivio e pensei "graças a Deus essa corrida infernal acabou".  Eu não tinha noção da gravidade naquele momento. Já tinha visto ele bater tantas vezes. Naquele momento, ali pra mim, a porrada não tinha sido (visualmente) diferente das outras. Eu não tinha noção do que estava acontecendo. Quando voltei do banho, percebi que tinha algo errado. E quando eu vi aquela imagem me deu um negócio...pensei "ele quebrou as pernas, por isso não sai do carro". Em nenhum momento pensei que ele poderia ter morrido. Comecei a acompanhar e ver tudo o que estava acontecendo. Foi um momento muito duro e inesquecível. O ano de 1994 foi horroroso pra mim, pois no 1º de maio o Ayrton morreu e dia 5 recebemos a notícia de que meu irmão tinha Aids.  E ele faleceu em 1996. Foram dias terríveis. Quando saí de Portugal para Ímola, fiz uma mala com escova de dente, muda de roupa. Na minha cabeça ele não estava morto, fiz uma mala pra ficar uns dias no hospital. E quando o avião estava decolando, tinha uma ligação pra mim no aeroporto. Era o Braga (Antônio Carlos, amigo e patrocinador de Ayrton que estava no hospital). Eu tinha certeza que ele estava vivo. Quando atendi, perguntei: "ele está muito machucado?". E o Braga, para me colocar no lugar, já falou: "ele está morto". Foi para me colocar no lugar, ele percebeu que eu estava em um estado diferente. Me deu um branco, não sei como cheguei no carro. Nunca voltei para pegar a mala de roupas. Voltamos de carro e eu não parava de chorar. Foram momentos inacreditáveis, muito difícil.

Como você encara as críticas dos que dizem que se aproveitou da relação para ter mais exposição?
Eu carrego essa história como um orgulho pra mim. Dos melhores aos piores momentos. Quando as pessoas falam isso, eu digo que nunca montei barraquinha pra vender coisa dele. Eu vendi (um livro sobre ele) para sobreviver a minha história do lado dele, e não vão tirar isso. Eu vivi com ele. Automaticamente pedi para parar a venda da edição quando consegui me sustentar. Se hoje ainda estivesse vendendo o livro, venderia muito bem. Era o diário de uma menina de 21 anos. Ganhei meu primeiro dinheiro com o livro, e na sequência fui ganhar com o meu trabalho. Fui reconhecida a partir de um acidente, mas o resto todo que eu fiz não foi sombra dele. Fui atrás do meu próprio trabalho. O livro tem dia e hora pra acabar. E eu fiz a Playboy porque o dinheiro me fez pagar dívidas, comprar apartamento e depois parei de publicar o livro. Eu não me incomodo [com as críticas]. Não carrego como fardo, mas sim como um escudo. Vou carregar eternamente e sempre prestar homenagens. Meu marido sabe a importância dele na minha vida. Não podemos deixar a história dele acabar.

Como era sua relação com a família do Ayrton? Tinha problemas?
Era ótima, porém distante. Ele é um cara que respeitava a família, a instituição família. Mas ele era um homem que não morava aqui. Ele passava dias aqui no Brasil. No último um ano e meio que vivemos juntos, viemos ao Brasil umas três vezes. Em uma ida pra Angra dos Reis a família dele nem foi. As outras vezes foram encontros bem rápidos. A base dele era em Portugal, Algarve, em Mônaco, e em Londres. A família sempre me tratou muito bem. E na época eu sempre falei "a minha relação é com ele". Ele morreu e não tenho mais vínculo. Eu me encontro socialmente com a Viviane (irmã), o Leonardo (irmão), nos cumprimentamos socialmente. Se eu tivesse filho com ele, era diferente. Então, assim, não tenho nenhum outro vínculo.

Uma biografia do Ayrton diz que o Leonardo sabia de uma gravação sua por telefone e que isso teria motivado uma briga com ele. É verdade?
O que tem fundo é o que falei. Ele brigou comigo porque eu falei para ele não correr. Foi o único esporro que tomei dele. O grilo que ele estava era da corrida. Se o Ratzenberger morreu na pista, não deveria ter corrida. Foi isso. E ele ficou bravíssimo.

*Colaborou Marcelo Freire

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